sábado, 20 de março de 2010

A pílula falante


No dia 18 de Abril comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil, criado pela Lei n.º 10.402, de 08/01/2002. Essa data foi escolhida em homenagem ao nascimento de Monteiro Lobato. José Bento Monteiro Lobato, o mais importante escritor de literatura infantil do Brasil, nasceu em 18/04/1882, em Taubaté, São Paulo, e morreu em 04/07/1948. A comemoração do Dia Nacional do Livro Infantil, é uma ótima oportunidade para apresentar as histórias de Monteiro Lobato às crianças. Em seus textos infantis, o autor fez mais do que montar o universo do Sítio do Picapau Amarelo. "Ele escrevia da maneira como se fala", define Hilda Merz, ex-diretora do museu da Biblioteca Monteiro Lobato, em São Paulo.
Fonte: http://www.lendorelendogabi.com/contos/autores_monteiro_lobato.htm

Para este mometo adaptei o primeiro capítulo do livro reinações de Narizinho, vol. I, de Monteiro Lobato, para ser dramatizado pela crianças. Nos próximos dias estarei publicando algumas atividades que podem ser feitas para comemorar este importante dia.

A pílula falante

(Cenário de sítio)

Narrador: Numa casinha branca, lá no Sítio do Picapau Amarelo, mora uma senhora de mais de sessenta anos. Chama-se Dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, pensa que ela é uma velhinha só e triste

(Música do sítio. Entra Dona Benta e senta-se numa cadeira de balanço, e começa a tricotar feliz, suspirando feliz)

Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vovós, porque vive em companhia de pessoas maravilhosas. Junto com ela mora Tia Nastácia, que adora fazer bolinhos de chuva.

(Entra tia Nastácia com uma panela)

D. Benta: Hum! Que cheiro bom é este! O que você está fazendo?

Tia Nastácia: Estou preparando alguns bolinhos de chuva.

D. Benta: Ai que delícia!

Narrador: No sítio mora também a mais encantadora das netas - Lúcia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem. Narizinho tem sete anos, é morena como jambo e vive no mundo das fantasias. Não desgruda de sua boneca Emília, feita de pano por Tia Nastácia.

(Musica da Narizinho. Entra Narizinho arrastando a boneca, que vem toda desengonçada e vai em direção da D. Benta),

Narizinho: Vovó, queria tanto que Emília falasse como nós, para ter com quem conversar.

D. Benta: Há, haha, ela é apenas uma boneca, não tem como falar.

Narizinho: Tem sim, a senhora vai ver como eu vou encontrar a cura para Emília!

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(Dá um beijo na vovó e na Nastácia e sai. D. Benta e Tia Nastácia saem atrás rindo, balançando a cabeça)

Narrador: Além da boneca, o outro encanto da menina é o ribeirão que passa pelos fundos do pomar. Todas as tardes Narizinho toma a boneca e vai passear à beira d’água, onde se senta na raiz dum velho ingazeiro para dar farelo de pão aos lambaris.

(Narizinho chega no ribeirão e senta com a boneca ao p[e de uma árvore e começa a jogar farelo de pão aos peixes)

Não há peixe do rio que a não conheça; assim que ela aparece, todos acodem numa grande faminteza. E nesse divertimento leva a menina horas, até que Tia Anastácia apareça no portão do pomar e grite na sua voz sossegada:

Tia Nastácia: Narizinho, vovó está chamando!...

Narrador: Uma vez, depois de dar comida aos peixinhos, Narizinho sentiu os olhos pesados de sono. Deitou-se na grama com a boneca no braço e ficou olhando as nuvens que passavam pelo céu,. E já estava quase dormindo quando sentiu cócegas no rosto. Arregalou os olhos e viu um peixinho vestido de gente bem na ponta de seu nariz.

(Um peixinho com casão vermelho, cartola ou coroa na cabeça e guarda-chuva na mão entra e fica olhando para o nariz de Narizinho)

O peixinho olhava para o nariz de Narizinho sem entender nada do que vê. Narizinho já estava quase não agüentando quando, de repente, apareceu um besouro, mas um besouro também vestido de gente.

(Entra um besouro trajando sobrecasaca preta, óculos, chapéu e bengala que ao ver o peixinho cumprimenta-o tirando o chapéu respeitosamente )

Mestre Cascudo: Muito boas-tardes, Senhor Príncipe!

Príncipe Escamado: Viva, Mestre Cascudo!

Mestre Cascudo: Que novidade traz Vossa alteza por aqui, Príncipe?

Príncipe Escamado: Vim respirar bons ares por aqui, mas encontrei este morro que me parece muito estranho.

(Aponta com o guarda chuva o nariz de Narizinho)

Mestre Cascudo: Creio que é de mármore. (Abaixou-se, ajeitou os óculos e examinou o nariz de Narizinho) Não, muito mole para ser de mármore. Parece requeijão.

Príncipe Escamado: Muito moreno para ser requeijão. Parece rapadura.

(Mestre Cascudo passa o dedo no nariz da menina e prova, fazendo careta)

Mestre Cascudo: Eca, muito salgada para ser rapadura...

(O príncipe Escamado está examinado o interior do nariz de Narizinho)

Príncipe Escamado: Veja que belas tocas para uma família de besouros! Por que não se muda para aqui, mestre Cascudo? Sua esposa havia de gostar desta repartição de cômodos.

(Mestre Cascudo foi examinar as tocas, medindo a altura com a bengala)

Mestre Cascudo: Realmente, são ótimas . Só receio que more aqui dentro alguma fera peluda.

(E começou a cutucar no nariz da menina).

Mestre Cascudo: Hu! Hu! Sai fora, bicho imundo!...

Narrador: Não saiu fera nenhuma, mas como Narizinho estava morrendo de cócegas, o que saiu foi um formidável espirro — Atchim!... e os dois bichinhos, pegados de surpresa, reviraram de pernas para o ar, caindo um grande tombo no chão.

(Narizinho espirra e os dois caem para trás assustados. Mestre Cascudo levanta-se, com muito medo, limpando a roupa)

Mestre Cascudo: Eu não disse? É, sim, ninho de fera, e de fera espirradeira! Vou-me embora. Não quero negócios com essa gente. Até logo, príncipe!

(Vai embora zunindo que nem um avião)

Narrador: E lá se foi Mestre cascudo, zumbindo que nem um avião. O peixinho, porém, que era muito valente, permaneceu firme, cada vez mais intrigado com a tal montanha que continuava espirrando. Por fim a menina teve dó dele e resolveu esclarecer todo o mistério. Sentou-se e disse:

Narizinho: Não sou montanha nenhuma, peixinho. Sou Narizinho, a menina que todos os dias vem dar comida a vocês. Não me reconhece? Esta senhora aqui é a minha amiga Emília.

Príncipe Escamado: Era impossível reconhecê-la, menina. Vista de dentro d’água parece muito diferente...

(O peixinho saudou respeitosamente a boneca)

Narrador: O peixinho saudou respeitosamente a boneca, e em seguida apresentou-se como o príncipe Escamado, rei do reino das Águas Claras.

Narizinho: Príncipe e rei ao mesmo tempo! (batendo palmas) Que bom, que bom, que bom! Sempre tive vontade de conhecer um príncipe-rei.

Príncipe Escamado: Parece que dona Emília está emburrada.

Narizinho: Não é burro, não, príncipe. A pobre é muda de nascença. Ando à procura de um bom doutor que a cure.

Príncipe Escamado: Há um excelente doutor na corte, o doutor Caramujo. Emprega umas pílulas que curam todas as doenças. Tenho a certeza de que o doutor Caramujo põe a senhora Emília a falar pelos cotovelos.

Narrador: Conversaram longo tempo, e por fim o príncipe convidou Narizinho para uma visita ao seu reino e aproveitar consultar Emília com o Dr. Caramujo. E lá se foram os dois de braços dados, como velhos amigos. A boneca seguia atrás sem dizer palavra.

(Cenário de fundo do mar. Um sapo vestido de guarda dormindo na porta do palácio)

Narrador: Quando chegaram ao Reino das Águas Claras, Narizinho ficou maravilhada com tanta beleza. Logo na entrada havia um guarda que dormia um sono roncado. Esse guarda não passava de um sapão que tinha o posto de major do exército, recebia como ordenado cem moscas por dia para que ficasse ali sapeando o palácio. Mas tinha o vício de dormir fora de hora, por isso o príncipe ficou furioso com ele e pregou-lhe um valente pontapé na barriga dele para acordá-lo, mas antes Narizinho vestiu-lhe com roupas de mulher: uma saia, uma touca de dormir e o guarda-chuva do príncipe no lugar da lança.

(O sapo gemeu abrindo os olhos)

Sapo: Ai, ai, hum!

Príncipe Escamado: Bela coisa. Major! Dormindo como um porco e ainda por cima vestido de velha coroca! Que significa isto?

Narrador: O sapo, sem compreender coisa nenhuma, mirou-se num espelho que havia por ali. E botou a culpa no pobre espelho.

Sapo: É mentira dele, príncipe! Não acredite. Nunca fui assim...

Narizinho: Você de fato nunca foi assim. Mas, como dormiu durante o serviço, a fada do sono o virou em velha coroca. Bem feito...

Príncipe Escamado : E por castigo está condenado a engolir cem pedrinhas redondas, em vez das cem moscas do nosso trato.

Narrador: O triste sapo derrubou um grande beiço, indo, muito jururu, encorujar-se a um canto. Mal eles sabiam que o pobre coitado em vez de comer pedrinhas, ia comer eram as pílulas do Dr. Caramujo.

Narrador: Então, depois de uma grande festa, onde D. Aranha costurou um lindo vestido para Narizinho, ela foi com Emília ao consultório do Dr, Caramujo. Encontrou o sapo major no consultório do dr. Caramujo, que já estava preocupado com o sumiço de suas pílulas. Ele abriu com a faca a barriga do sapo e começou a tirar as pedrinhas, foi quando descobriu que não eram pedrinhas, mas sim suas pílulas

Dr. Caramujo: mas olhem só! Não são pedras, não! São as minhas queridas pílulas! Mas como teria ela ido parar na barriga deste sapo?...

Narrador: A alegria do doutor foi imensa. Como não soubesse curar sem aquelas pílulas, andava com medo de ser demitido de médico da corte.

Dr. Caramujo : Agora sim, podemos agora curar a senhora Emília. Venha sra. Emília, engula está pílula.

Narrador: Veio a boneca. O doutor escolheu uma pílula falante e pôs-lhe na boca.

Narizinho: Engula duma vez, Emília, e não faça careta, assim ó!

Narrador: Emília engoliu a pílula, muito bem engolida e Narizinho a colocou numa caixa de costura e foi conversar com o dr. Quando de repente, Emília começou a sair da caixa e começou a falar no mesmo instante.

(Música da Emília. A boneca começa a sair da caixa, bem devagar)

Narizinho: Olhem, vejam ela quer falar alguma coisa!

(Emília fica testando a voz e Narizinho da um leve tapa nas suas costas)

Narizinho: Fala Emília, fala Emília, fala!

Emília: : “Estou com um horrível gosto de sapo na boca

Narrador: Depois disso Emília falou, falou, falou mais de uma hora sem parar. Falou tanto que Narizinho, atordoada, disse ao doutor que era melhor fazê-la vomitar aquela pílula e engolir outra mais fraca.

Dr. Caramujo : Não é preciso. Ela que fale até cansar. Depois de algumas horas de falação, sossega e fica como toda gente. Isto é “fala recolhida”, que tem de ser botada para fora.

Emília: Mas que caras são essas? Quem são todos esses? Pra que tanta gente? Tem festa aqui hoje, é? E vocês? Sabem por que eles estão com essas caras de corujas azedas? Quem são vocês? Qual seu nome? E a sua idade? Você estuda? Tem que estudar pra ficar tão inteligente quanto eu! E você ai, gosta do Sítio?

Narrador: E assim foi. Emília falou três horas sem tomar fôlego. Por fim calou-se. Foi quando se ouviu a voz de Tia Nastácia chamando Narizinho e todos os personagens sumiram como que por encanto.

Tia Anastácia: Narizinho, vovó está chamando!...


Obs: No final da dramatização, será apresentada a dança da Emília, com a música de Baby Consuelo "Emília, a boneca gente" com as meninas caracterizadas de bonecas.


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