sexta-feira, 25 de março de 2011

Níveis de aprendizagem


Conhecer como se aprende para saber como ensinar  

 As pesquisas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky sobre a psicogênese da língua escrita demonstram como se constrói, em três níveis evolutivos, a compreensão do sistema alfabético de representação da língua, permitindo definir atividades e intervenções pedagógicas que favorecem a compreensão da escrita e a superação das dificuldades desta aprendizagem. 

1.     Nível pré-silábico: neste nível, a criança não estabelece relações entre a escrita e a pronúncia. Nesta fase, ela expressa  sua   escrita através de desenhos,  rabiscos  e letras usadas aleatoriamente, sem repetição e com o critério de no mínimo três.  Aqui, a criança nem desconfia que as letras possam ter qualquer relação com  os sons da fala. Ela só sabe que  se escreve com símbolos, mas não relaciona esses símbolos com a linguagem oral. Acha que coisas grandes devem ter nomes com muitas letras e coisas pequenas  nomes com poucas letras.É a fase do "realismo nominal", expressão utilizada por Piaget para designar a impossibilidade de conceber a palavra e o objeto a que se refere como duas realidades distintas. Assim, a criança pensa que a palavra trem é maior que telefone, porque representa um objeto maior e mais pesado. A superação do realismo nominal, pela percepção de que a palavra escrita, diferentemente do desenho, não representa o objeto, mas seu nome, é indispensável para o sucesso na alfabetização.

OBS: Alguns autores citam o nível Pré-silábico I, que é quando o aluno pensa que se escreve com desenhos. As letras não querem dizer nada para ele. A professora pede que ele escreva "bola", por exemplo, e ele desenha uma bola

Conflito que levará ao próximo nível: a percepção de que há estabilidade nas palavras (há uma forma única para escrever corretamente cada palavra).  

Dicas: usar, na escrita, a letra de imprensa maiúscula (de forma ou bastão) favorece a percepção das unidades sonoras e diminui o esforço e as dificuldades psicomotoras. A letra manuscrita (cursiva) só deve ser introduzida quando a criança adquire a base alfabética. A alfabetização deve ser iniciada com palavras de significado para a criança, como seu próprio nome, e não com palavras pequenas (pá, pé, nó) ou com sílabas repetidas (babá, Lili). 

Sugestões de atividades para o nível pré-silábico: 
  • Iniciar pelos nomes dos alunos escritos em crachás, listados no quadro ou em cartazes;
  • Identificar o próprio nome e depois o de cada colega, percebendo que  nomes maiores podem pertencer às crianças menores e vice-versa;
  • Classificar os nomes pelo som inicial ou por outros critérios;
  • Organizar os nomes em ordem alfabética, ou em “galerias” ilustradas com retratos ou desenhos;
  • Criar jogos com os nomes (“lá vai a barquinha”, dominó, memória, boliche, bingo);
  • Fazer contagem das letras e confronto dos nomes;
  • Confeccionar gráficos de colunas com os nomes seriados em ordem de tamanho (número de letras).
  • Fazer estas mesmas atividades utilizando palavras do universo dos alunos: rótulos de produtos conhecidos ou recortes de revistas (propagandas, títulos, palavras conhecidas). 
2. Nível silábico: a criança descobre a lógica da escrita, percebendo a correspondência entre a representação escrita das palavras e as propriedades sonoras das letras, mas pensa que cada letra representa é uma sílaba oral, ou seja, usa ao escrever uma letra para cada emissão sonora (cada sílaba). 
Conflito que levará ao próximo nível: impossibilidade de ler silabicamente o que os outros escrevem (sobram letras). 
Dicas: a hipótese silábica é uma construção da criança e o  treino descontextualizado e mecânico das sílabas não a favorece. O professor provocará o conflito que a possibilita com intervenções e atividades que ajudem a perceber a estabilidade da escrita convencional, no confronto com palavras já conhecidas (nomes dos colegas, produtos). Quando a criança lê o que escreveu percorrendo a palavra com o dedo percebe que sobram letras (hipótese pré-silábica) ou faltam (hipótese silábica), facilitando a construção da hipótese alfabética. 

Sugestões de atividades para o nível silábico:  
  • Fazer listas e ditados variados (de alunos ausentes/ presentes, livros de histórias, ingredientes para uma receita, nomes de animais, questões para um projeto); 
  • Usar jogos e brincadeiras (forca, cruzadinhas, caça-palavras);
  • Organizar supermercados e feiras; 
  • Fazer “dicionário” ilustrado com as palavras aprendidas, diário da turma, relatórios de atividades ou projetos com ilustrações e legendas;
  • Propor atividades em dupla (um dita e outro escreve), para reescrita de notícias, histórias, pesquisas, canções, parlendas e trava-línguas. 
3. Nível alfabético: caracteriza-se pela correspondência entre fonemas e grafemas, quando a criança compreende a organização e o funcionamento da escrita e começa a perceber que cada emissão sonora (sílaba) pode ser representada, na escrita, por uma ou mais letras. A base alfabética da escrita se constrói a partir do conflito criado pela impossibilidade de ler silabicamente a escrita padrão (sobram letras) e de ler a escrita silábica (faltam letras). Neste nível, a criança, embora já alfabetizada, escreve ainda foneticamente (como se pronuncia), registrando os sons da fala, sem considerar as normas ortográficas da escrita padrão e da segmentação das palavras na frase. 

Segundo Ferreiro e Teberosky (1991), "aqui a criança já compreendeu que cada um dos caracteres da escrita corresponde a valores menores que a sílaba. Isto não quer dizer que todas as barreiras tenham sido superadas: a partir deste momento, a criança se defrontará com as dificuldades da ortografia, mas não terá mais problemas de escrita, no sentido estrito.” 
Dicas: o tempo necessário para avançar de um nível para outro varia muito. A evolução pode ser facilitada pela atuação significativa do professor, sempre atento às necessidades observadas no desempenho de cada aluno, organizando atividades adequadas e colocando, oportunamente, os conflitos que conduzirão ao nível seguinte. O uso da metodologia contrastiva, permitindo que a criança confronte sua hipótese de escrita com a forma padrão (nos diversos materiais de leitura já conhecidos) são um importante recurso para a estabilização da escrita ortográfica. 
A sistematização do processo de alfabetização se dará ao longo dos anos subseqüentes. Na medida em que o aluno adquire segurança no contato prazeroso, contextualizado e significativo com a língua escrita, sua leitura torna-se mais fluente e compreensiva. Por meio  da leitura, o aluno assimila, aos poucos, as convenções ortográficas e gramaticais, adquirindo competência escritora compatível com as exigências da escrita socialmente aceita. Desenvolve-se, assim, o gosto e o interesse pela leitura e a habilidade de inferir, interpretar e extrapolar as idéias do autor, formando-se o leitor crítico.

7 comentários:

Anônimo disse...

Tem como vc aumentar essas figuras? obrigada!
Luciana

bethânia disse...

ESTOU APRENDENDO CADA DIA MAIS!!!ESSE BLOG É MESMO UM SUCESSO!!!!

CARLA RENATA DUARTE ARAUJO disse...

MUITO BOM. OBRIGADA.

CARLA RENATA DUARTE ARAUJO disse...

Muito bom, obrigada.

Alessandra disse...

Amei,muito obrigada!

Alessandra Farias disse...

Gostei muito

Crianças Felizes disse...

Ótimo mesmo